Crónica 19

Publicado 18 Julho, 2009 por Tiago Ramos
Categorias: Não classificado

Querida Mariana,

Sim, eu sei. Já passou o Ano Novo, as 12 passas já lá vão, bem como o mesmo número de badaladas. A lista de “coisas a fazer”, a de “coisas a não repetir”, a de “com reservas”, a de “dê lá por onde der”… já lá vão bem longe, prontas a serem alteradas. Sei que desapareci da tua caixa do correio por mais de seis meses e logo eu que andava tão fino, como um relógio, ali sempre pronto a entrar pela frestinha da caixa, nas mãos de um qualquer carteiro. Eu sei disso tudo, sei do que te disse, do que te prometi (e logo tu que nunca gostaste de promessas) e sei também daquilo que não fiz.

Se me vais perguntar o que me aconteceu, o que mudou, o que me fez cessar a troca de correspondência, se me vais perguntar onde estive, porque não estive aí, porque estive em outro sítio qualquer, se me vais questionar qualquer coisa que seja… eu não vou saber responder. Não sei, porque há coisas que nos passam pela cabeça mais depressa que um relâmpago, mais depressa que os beijos que davamos aos 12 anos, assim de fugida, nas escadas do teu prédio.

Mariana, eu sei que te continuo a querer, que quero reacender aquilo que se extinguiu, mas minha querida, há coisas que não têm sequer ponta por onde se lhe pegue, ponta por onde se acenda. Tal como esta carta. As letras, as palavras, os períodos, os pontos. Tudo sai sem sentido, sem resposta para te dar, sem saber se a devia estar a escrever ou não, se mais valia estar calado de vez.

Não me perguntes o porquê, não me perguntes onde, não me perguntes quando, nem o quê. Diz-me antes o que quero ouvir, que afinal o tempo não passou, que não estamos em Julho, que afinal ainda é Dezembro e ainda vamos a tempo de ver o fogo de artíficio.

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Crónica 18

Publicado 29 Dezembro, 2008 por AnaA
Categorias: Não classificado

Meu querido,

O ano novo parece-me tão bom como outro dia qualquer. Sabes que nunca liguei às decisões de ano novo, nem nunca as fiz, porque acho que o tempo de tomar decisões são todos os dias. Não é por trocar o calendário na parede que me sinto mais compelida a mudar a minha atitude. O dia 31 parece-me tão bom como hoje ou amanhã, talvez até pior por estar mais longe. Mas certamente é melhor do que o dia 1.

Se quiseres voltamos a empanturrarmo-nos em comida na época natalícia, contigo a reclamares porque não percebes o sentido de o fazermos e de trocarmos prendas. Se quiseres marcamos o Natal para outro dia, pode ser dia 14 de Julho, o que achas? É um dia tão bom como o dia 25 de Dezembro e assim até parecia que estávamos no Brasil. E podia coser uma meia gigante e sair de lá como as stripers dos imaginários dos miúdos de 16 anos saem dos bolos de aniversário gigantes.

Quero-te conhecer as rugas e os sulcos na pele como quem decora o mapa da sua vida. Não interessa que dia seja, só quero que aconteça.

Mariana*

Crónica 17

Publicado 29 Dezembro, 2008 por Tiago Ramos
Categorias: Não classificado

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Sei que já passou mais de um mês desde que me escreveste a última carta e provavelmente esperavas uma resposta minha. Mas sabes? Às vezes preciso de tempo para digerir. Nunca fui bom de estômago, provavelmente ainda te lembras. Às vezes as palavras dão-me uma digestão difícil e não sei o que hei-de dizer. Quer dizer, até sei o que falar. Afinal é claro que te quero, quero-te muitas vezes, quero-te a dobrar em dias de sol e a multiplicar em dias de chuva. Quero-te, claro que sim. É claro que te aceito, sim aceito. “I do”, como dizem pelas terras do Tio Sam e em outros locais que agora não me lembro. Sabes também que a geografia nunca foi o meu forte.

Entretanto passou o Natal. Sabes há quantos anos não comemoro o Natal? Tantos como aqueles em que desapareceste, menos um. Sim, menos um, porque o primeiro Natal após a tua partida, ainda o comemorei, com esperança que me calhasses no sapatinho. Não calhaste e eu perdi a confiança no velho das barbas. Esse mentiroso.

É claro que te quero. Acho que consigo esquecer o passado. Acho que podemos começar de novo, tipo amigo por correspondência, daqueles de um país estranho com quem trocávamos cartas no ciclo.

Olá, que idade tens? De onde és? Tens namorado? O que fazes? Amas-me?

Esqueci-me que não querias interrogatórios. Queres começar de novo? E que tal o ano novo?

Crónica 16

Publicado 17 Novembro, 2008 por AnaA
Categorias: Não classificado

Quero… Quero encontrar-te por acaso na mesa do café que frequentávamos e ver se o dono ainda nos reconhece das conversas intermináveis sobre música e cinema que tínhamos, às vezes terminando em discussões. Acima de tudo quero descobrir que rugas já te apareceram, quero adivinhar onde vai aparecer a próxima e em quanto tempo o teu cabelo vai ficar grisalho. Se já tens a tua tão temida careca, ou se começam apenas a faltar alguns cabelos ali (vão voltar a crescer, decerto… careca é que nunca!).

Mas preciso que não me perguntes, que não me faças inquéritos do que se passou naquela tarde ou nos últimos anos. Quero recalcar as memórias, quero que as coisas por que passei afastada de ti não sejam mais memórias, apenas um sonho terrível que tive, para a seguir acordar ao teu lado. Sei que precisas de me conhecer e reconhecer, mas quero ser apenas a mesma pessoa que fui durante aqueles nossos tempos.

Não me arqueies a sobrancelha, sabes que o faço muito melhor do que tu, que a minha direita fica muito mais para cima e completamente arqueada e que à conta disso fico com uma cara de parva impressionante. Agora com as rugas ainda pior… Preciso de ti ao meu lado mais do que sempre, preciso de alguém que consigo ver na escuridão, de alguém que reconheço sem ver (será que ainda te reconheço?).

Diz-me que aceitas, diz-me que não estou a ser egoísta (mente-me). Mas preciso de ti. Prometo que te faço cafés o resto da vida se me quiseres nela. Fazes-me o chocolate quente?

Mariana*

Crónica 15

Publicado 11 Agosto, 2008 por Tiago Ramos
Categorias: Não classificado

Deixas-me sem palavras. Nem sei porque existem palavras, se há momentos em que estamos incapacitados de as pronunciar. As palavras não deviam existir, não achas? Por que existem palavras, se existem os conceitos? E um olhar não basta às pessoas, um toque, um arquear de sobrancelha?

Arqueei a minha sobrancelha quando li a tua carta. Acho que não preciso dizer mais nada. Pensei ainda tirar uma fotografia ao meu olhar, para ver se percebias melhor. Palavras já não são para mim.

Não sei se consigo viver sem informação e conhecimento. Gosto de perceber tudo. A ti, contudo, não percebo. Há dias em que acho que me queres, mas há outros em que não tenho noção alguma do que desejas para a tua vida.

Preciso de um café. Preciso do cheiro dele. (Ou será do teu?) Preciso, acima de tudo, de uma resposta. Tenho necessidade de compreender o passado e, essencialmente a ti. Não queres combinar alguma coisa? Um encontro, um olhar de soslaio a uma distância previamente calculada. Eu numa rua e tu na perpendicular, assim à esquina como quem anda a fugir de algo.

Pode ser? QUERO-TE STOP

Crónica 14

Publicado 3 Agosto, 2008 por AnaA
Categorias: Não classificado

Quero-te STOP

Toma lá o teu telegrama… Acho que estou meia doida mas já não me interessa. Já me aconteceu demasiado nesta vida para poder continuar com este vai-não-vai.

Não sei se algum dia te vou conseguir explicar ou justificar-me pelo que fiz naquela tarde. Se consegues viver com isso, tudo bem. Se não, não sei se algum dia vou mudar de opinião.

Acima de tudo preciso de te ver, preciso de te ver o sorriso com que me acordavas naquelas manhãs, com o tabuleiro com o café da manhã (que nunca trazia café) e um beijo. Será que entretanto aprendeste a fazer o café como gostavas que to preparasse? Tenho esperança que não, sinceramente… Apetece-me fazer-te o café e fazer experiências estranhas, como daquela vez em que pus canela… Sou egoísta, mas apetece-me que precises de mim para alguma coisa ainda…

Não quero que sejas o homem adulto, quero que sejas o miúdo com quem sonhava envelhecer, a quem queria descobrir a primeira ruga e que me descobrisse o primeiro cabelo branco, despoletando as crises de meia-idade e eu começasse subitamente a pintar o cabelo de loiro como desculpa para o estar a fazer (e não para disfarçar os brancos).

Diz-me, meu querido… Ainda aceitas envelhecer comigo, mesmo não te contando algumas das coisas que se passaram? Mesmo não sabendo o que se passou naquela tarde e nos últimos anos?

Crónica 13

Publicado 11 Junho, 2008 por Tiago Ramos
Categorias: Não classificado

Mariana,

Quase me faltou o fôlego quando, hoje de manhã e ainda de pijama, abri a minha caixa do correio. Passou um mês, Mariana. Num mês tanto se passa, mas durante este último a minha vida esteve em suspenso. Esperei dias a fio por uma resposta tua, uma carta, qualquer coisa de poucas palavras, um telegrama talvez “Estou viva. STOP.”

Pensei em correr os hospitais da zona, ligar para a Eduarda, tentar procurar-te, tentar contactar-te, obter qualquer sinal teu. Não sei porque não o fiz, mas acho que lá no fundo sempre esperei que tivesses partido de uma vez, que te tivesses decidido, um não redondo, mas que pelo menos não era um talvez, quem sabe.

Bipolar, acho que sou. Esquizofrénico, eventualmente. Há dias em que te quero longe de mim, há outros que quero-te junto. Andas a deixar-me louco com as tuas indecisões, com as tuas possíveis respostas, com o teu rol de objecções, com os teus quês e porquês, os teus medos (o principal sou eu). Também preciso de ti, Mariana. Mas dá-me uma resposta ao menos, decide, decide, que já não tenho capacidade para mais. Por favor.

Acho que hoje fico por casa, de pijama. Não tenho reacção à tua carta. Um mês é muito tempo. O amor é a solidão das multidões. Eu faço parte dessa multidão. Hoje fico por casa, de pijama. À espera de uma resposta tua. Gosto do teu café, gosto sim. Quem sabe não será numa destas manhãs que vou acordar com o cheiro ao teu café?

Amo-te,

Filipe