Arquivo de Dezembro 2007

Crónica 4

29 Dezembro, 2007

Filipe,

As letras da tua última carta já desapareceram, de tantas voltas que lhe dei, de tantas cambalhotas que já deu na minha mala (sim, tem andado comigo nestes últimos dias), de tantas acrobacias que já fez desde que chegou às minhas mãos (incluindo um triplo mortal encarpado direito ao balde do lixo, recuperado no último momento antes de entrar).

Não consigo dar-te o “não” definitivo, pelo menos em relação às cartas… Agora que recuperei um bocadinho de ti, não me apetece mandá-lo ao ar (tenho medo que se parta, como aquela estátua horrorosa que a minha tia me tinha oferecido e que eu odiava, mas sobre a qual chorei quando se partiu… já estava habituada a ela). Mas em relação às visitas, pelo menos por agora, é um definitivo…

Na realidade, não sei como estava à espera que me falasses. Na verdade, não estava à espera, ponto. Mas quando falaste naquele tom, custou-me… Eu sei, não tenho direito a dizer nada, quem partiu fui eu. Já agora, para responder à tua pergunta, não me esqueci de ti como quem não esquece os melhores momentos da vida (como quem não esquece os melhores momentos da minha vida, que foram contigo).

Não te respondi quanto a compromissos porque nem eu sei… Estou numa fase complicada da minha vida, e o teu (re)aparecimento veio piorar as coisas… É contigo que comparo todos os que entram ou tentam entrar na minha vida, és tu o meu ponto de referência, A pessoa. Ou pelo menos, a pessoa que eras… A casa que referes não se adequa ao Filipe que conheci, porque ainda me lembro da primeira tarde que passámos naquele T1 que arranjámos, em que ficámos tão frustrados a olhar para as paredes brancas que fomos ao supermercado comprar papel de embrulho colorido e o dispusemos na parede. Não, não encaixa contigo, a menos que já não sejas o mesmo…

Mariana

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Crónica 3

25 Dezembro, 2007

Mariana, Mariana

Já li e reli a carta que me mandaste um sem fim de vezes e continuo sem saber o que escrever, o que dizer, sem me caírem lágrimas no papel… Dizes que te escrevi num tom formal, mas como querias que falasse perante uma pessoa a quem perdi o rasto há tantos anos, com quem perdi muitos anos de vivências que podia ter partilhado? Diz-me agora por favor, como querias que falasse com a pessoa que não esqueço e não faço ideia se tem outro alguém na vida? Dizes que não me esqueceste. Eu também não esqueço o último livro que li, o primeiro filme que fui ver ao cinema, a minha comida preferida: há muitas formas de não esquecer e não sei qual é a tua. Choro especialmente porque não me respondeste se tens alguém, se tens um compromisso, se não o citaste, é porque tens…

Compreendo, tento compreender. Mas é difícil para mim perceber: como se parte sem vontade? Como se parte da vida de alguém a quem se fez juras de amor, sem mais delongas, sem um “volto já” ou um “até breve”. Podes chamar-me um fraco, mas não consigo não chorar, não consigo esquecer-te ou evitar de pensar em ti.

Moro sozinho, sim. Habito numa pequena casa vazia, sem nada meu, sem um toque pessoal, tudo padrão, tudo direito, tudo monótono e vazio. Eu habito aqui, mas não vivo. Desde que partiste, não sei sequer se sei o que é viver ou se para viver tem de se sentir obrigatoriamente dor. Moro com a solidão, uma companhia vazia, que me preenche os dias por completo e ainda perguntas tu o que me terá feito mudar. Quando não se tem o amor verdadeiro como queres que se viva, como queres que se seja feliz, que se ria, que se converse? Tenho sede de falar, tenho sede de ter… não das pessoas em geral, mas de ti. Perdoa-me mais uma vez a ousadia de te falar assim. E desta vez fiz um esforço para te tratar pela segunda pessoa do singular (sim, ainda sou um apaixonado pelas letras), mesmo que isso seja como que espetar facas em mim, porque me faz recordar os velhos tempos….

Não queres que te visite, nem sabes se queres que te escreva, mas até me dares um “não” redondo vou continuar a fazê-lo… Perdoa-me.

Filipe

Crónica 2

23 Dezembro, 2007

Filipe,

Deixaste-me confusa… Como queres que não me lembre de ti? Como é que me tratas num tom tão formal para dizeres coisas dessas? Não, não se usa esse tom para dizer o que disseste… Muito menos ao fim de todo este tempo. Não, não te consigo tratar friamente por “você” como fizeste comigo, talvez sejam reminiscências da altura em que nos conhecemos, em que ninguém se tratava por “você”.

Nem sei se quero que me escrevas, mas uma coisa é certa: não quero que me visites. Apesar de tudo, não te acho no direito de invadires os meus dias sem aviso prévio, sem qualquer bilhete a dizer “vais ter uma surpresa” para que eu estivesse preparada para qualquer coisa… Para qualquer coisa já seria bom. Evitava o tremor que me atravessou o corpo quando abri a caixa do correio e dei pela tua letra no envelope (sim, ainda a reconheço, não precisei sequer de ler o nome naquela tua letra apertada).

Ainda me custas, nunca te esqueci. Não foi por vontade minha, tive de partir, sabes que tive… Não aguentava mais tudo o que se passava à nossa volta… Mas nunca esqueci aquele dia no jardim, a olhar para o “nosso” rio, adoptado, e as palavras que me dirigiste e que te dirigi. Nunca te esqueci.

Moras sozinho, pelo que percebi. Vives sozinho, pelo que compreendi da tua carta. Não no sentido de não morares com ninguém, mas sim pelo facto de me pareceres uma pessoa solitária. Tu não eras assim, não percebo o que te terá feito mudar… Tal como aconteceu com a Eduarda, tinhas sede de falar com as pessoas e saber mais sobre elas e o que as rodeava, não sei o que te aconteceu…

Mariana

Crónica 1

16 Dezembro, 2007

Cara Mariana,


Não sei se se recorda de mim ou se faz a mínima ideia de quem sou. Os anos passam e todos nós mudamos (a Mariana também mudou certamente), mas há coisas que nunca mudam ou melhor, nunca se esquecem.

A minha idade já não é a mesma, mas as recordações permanecem acesas na minha mente como que atiçadas por um ferro em brasa. O jardim com vista para o Douro, diz-lhe alguma coisa? Se falar em 10 de Novembro, ajuda? Espero que sim, que se recorde da minha pessoa e tudo o que já se passou e o que já vivemos. Talvez se pergunte o porquê desta carta: por que relembrar uma coisa antiga, por que reviver o passado? E eu respondo-lhe que todos os dias da minha vida, durante estes anos todos, sem excepção, todas as manhãs acordava e o nome “Mariana” ressoava nas paredes deste quarto vazio. E cada vez mais vazio, mais branco, mais pálido como se padecesse de um mal qualquer desconhecido, desde a sua partida.

Perdi-lhe o rasto, perdi-lhe o rasto lamentavelmente, perdi-lhe o cheiro a canela, o aroma doce característico. As minhas lágrimas são crónicas, nunca mais pararam desde que lhe perdi o rasto. Sempre tive medo da dor e a sua ausência fez-me sentir essa dor nua e crua todos os dias, todas as manhãs, todas as noites. Não imagina como não coube em mim de contente quando descobri a sua morada! É por isso que hoje lhe escrevo, porque não consigo conter as palavras, não as consigo calar ou impedir que brotem, não, não consigo…

Encontrei a Eduarda ontem. Já há tantos anos que não a via, está mais velha, mas os traços são iguais. Ia na rua, a tentar combater a dor, a solidão que passeia comigo lado a lado e dou de caras com ela. Não me recordo já como foi, mas passados alguns minutos estávamos os dois sentados a beber um café (ainda me lembro que não gosta de café), prolongado horas e horas a falar do passado. Perguntei-lhe por si Mariana, mas a Eduarda achou melhor não falar sem a sua autorização; no entanto, tomou a liberdade de me passar um papelinho (por baixo da mesa, como se fosse um acto ilícito) com a sua morada.

Desculpe Mariana, desculpe. Tive a cobardia de não a visitar. Desculpe Mariana, desculpe. Tive a ousadia de lhe escrever esta carta, tive o desplante de dirigir as palavras a si, sem saber sequer como vai, sem saber se no seu dedo habita algum anel e se no seu coração mora um compromisso. Provavelmente sim, já passaram tantos anos… Desculpe-me a impertinência, o atrevimento.

Sinta-se à vontade para me responder a esta carta ou melhor, imploro-lhe que o faça. Aguardo ansiosamente por notícias suas, Mariana.

Com as mais singelas saudades,

Filipe Pontes

P.S.: Os muitos anos de distância impedem-me que a trate por tu, como anteriormente. Espero que na próxima carta o consiga fazer…