Arquivo de Janeiro 2008

Crónica 6

30 Janeiro, 2008

Continuas o mesmo de sempre… Já não me lembrava desse teu lado, mas essa tua atitude, de teres ficado feliz por ainda pensar em ti, parecias-me o mesmo por quem me apaixonei. Já não me lembrava dos dois anos que passaste a tentar convencer-me de que eras a pessoa ideal para mim. Éramos tão felizes nessa altura… E especialmente felizes quando me deixei convencer… As coisas mudam tanto…

Um “não definitivo” é temporário quando acontecem certas coisas… E o que aconteceu há umas semanas atrás é que te vi. Sim Filipe, eu vi-te em Braga. Não te disse nada porque não fui capaz, porque os meus sapatos colaram-se ao chão e não fui capaz de andar, de ir ter contigo e dirigir-te um “olá, tudo bem?” como se nada fosse. Depreende-se daqui que é, portanto, alguma coisa. És uma parte da minha vida que eu já não tencionava nem esperava reencontrar. Daquelas que se guardam na memória como uma boa recordação.

 

Pareceste-me mais baixo… Como se algo pesasse em ti, já nem a tua expressão é a mesma. E estavas de fato (meu Deus, como me lembro do quanto odiavas fatos, do quanto imploraste para que te deixasse ir sem gravata ao baile de finalistas). Sempre pensei que, se algum dia te reencontrasse, seria em qualquer revista, de calções e perdido algures numa qualquer montanha que tivesses ido fotografar… Mas não… O que é feito de ti, Filipe? Dos teus sonhos?

 

Fazes-me falta, apesar de tudo. Foi o que concluí. Apesar de não seres o mesmo, apesar de aquilo que tivemos ter sido há tanto tempo, fazes-me falta. Completavas-me e, ao partir, deixei um bocado de mim contigo. São coisas que já não se podem mudar…

 

Explica-me onde posso reencontrar o velho Filipe. Tenho saudades dele.

Mariana*

Crónica 5

18 Janeiro, 2008

Mariana,

Não pude deixar de sorrir ao ler a tua última carta. Podes achar-me estranho por isso, mas fez-me recordar os teus tempos de escola em que eras uma ginasta reconhecida. Não chegaste a seguir uma carreira nessa área, principalmente por causa de tudo o que aconteceu. Mas sempre tiveste esse “bichinho” dentro de ti.

Não posso deixar de sorrir também por verificar que não consegues não pensar em mim. Há ainda qualquer coisa que mexe contigo, que te deixa alterada e sinceramente, fico feliz com isso.

Dizes que, por agora, é um “não” definitivo. Não existem coisas definitivas temporariamente, não existem “não” definitivos só por agora, só por um dia ou outro, quando dá mais jeito, para fazer doer menos. Não podes fazer uso das palavras, para esconder os sentimentos, não abuses dos “não” definitivos momentaneamente só porque não consegues admitir que ainda gostas de mim, que se quisesses não terias partido repentinamente.

Confesso que nem eu agora te conseguiria visitar, já passou muito tempo, não sei se te conseguiria olhar nos olhos, te fitar como antigamente, sem tentar descobrir novidades no teu rosto, marcas de quem já passou por ti, caminhos pelos quais nunca cheguei a passar. Nem sei se te conseguiria falar directamente, sem me engasgar com as palavras, sem esconder as mãos atrás das costas, balouçando-me, como se fosse novamente um menino apaixonado.

Fizeste-me recordar a nossa espontaneidade juntos, a nossa alegria conjunta, a forma como éramos originais, como erguíamos os nossos planos conjuntos. Quando foste embora, abandonei a nossa casa também, porque já não aguentava ter de olhar para as mesmas paredes, os mesmos locais por onde estivemos juntos e onde um dia partilhamos o mesmo sonho. A casa onde vivo agora talvez não seja do mesmo Filipe que conheceste, duvido até que esse Filipe ainda exista, a casa onde moro é simplesmente um tecto, porque andar à chuva continua a ser incómodo como antes.

Filipe