Arquivo de Dezembro 2008

Crónica 18

29 Dezembro, 2008

Meu querido,

O ano novo parece-me tão bom como outro dia qualquer. Sabes que nunca liguei às decisões de ano novo, nem nunca as fiz, porque acho que o tempo de tomar decisões são todos os dias. Não é por trocar o calendário na parede que me sinto mais compelida a mudar a minha atitude. O dia 31 parece-me tão bom como hoje ou amanhã, talvez até pior por estar mais longe. Mas certamente é melhor do que o dia 1.

Se quiseres voltamos a empanturrarmo-nos em comida na época natalícia, contigo a reclamares porque não percebes o sentido de o fazermos e de trocarmos prendas. Se quiseres marcamos o Natal para outro dia, pode ser dia 14 de Julho, o que achas? É um dia tão bom como o dia 25 de Dezembro e assim até parecia que estávamos no Brasil. E podia coser uma meia gigante e sair de lá como as stripers dos imaginários dos miúdos de 16 anos saem dos bolos de aniversário gigantes.

Quero-te conhecer as rugas e os sulcos na pele como quem decora o mapa da sua vida. Não interessa que dia seja, só quero que aconteça.

Mariana*

Crónica 17

29 Dezembro, 2008

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Sei que já passou mais de um mês desde que me escreveste a última carta e provavelmente esperavas uma resposta minha. Mas sabes? Às vezes preciso de tempo para digerir. Nunca fui bom de estômago, provavelmente ainda te lembras. Às vezes as palavras dão-me uma digestão difícil e não sei o que hei-de dizer. Quer dizer, até sei o que falar. Afinal é claro que te quero, quero-te muitas vezes, quero-te a dobrar em dias de sol e a multiplicar em dias de chuva. Quero-te, claro que sim. É claro que te aceito, sim aceito. “I do”, como dizem pelas terras do Tio Sam e em outros locais que agora não me lembro. Sabes também que a geografia nunca foi o meu forte.

Entretanto passou o Natal. Sabes há quantos anos não comemoro o Natal? Tantos como aqueles em que desapareceste, menos um. Sim, menos um, porque o primeiro Natal após a tua partida, ainda o comemorei, com esperança que me calhasses no sapatinho. Não calhaste e eu perdi a confiança no velho das barbas. Esse mentiroso.

É claro que te quero. Acho que consigo esquecer o passado. Acho que podemos começar de novo, tipo amigo por correspondência, daqueles de um país estranho com quem trocávamos cartas no ciclo.

Olá, que idade tens? De onde és? Tens namorado? O que fazes? Amas-me?

Esqueci-me que não querias interrogatórios. Queres começar de novo? E que tal o ano novo?